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O imaginário mítico indígena e africano - cosmogonias e outras criações imaginárias - na literatura e nas artes.

2021-08-09

A revista Téssera – publicação do GT da ANPOLL "Imaginário, representações literárias e deslocamentos culturais – está com chamada aberta para o dossiê O imaginário mítico indígena e africano - cosmogonias e outras criações imaginárias - na literatura e nas artes.

 

Organizadores:

Prof. Carlos Augusto de Melo (UFU)

Profa. Zuleide Duarte (UEPB)

 

Recebimento de trabalhos: até 09 de outubro de 2021

Publicação: até dezembro de 2021

 

 

Foi Omama que criou a terra e a floresta, o vento que agita suas folhas e os rios cuja água bebemos. Foi ele que nos deu a vida e nos fez muitos. Nossos maiores nos deram a ouvir seu nome desde sempre. No começo, Omama e seu irmão Yoasi vieram à existência sozinhos. Não tiveram pai nem mãe. Antes deles, no primeiro, havia apenas a gente que chamamos yarori. Esses ancestrais eram humanos com nomes de animais e não paravam de se transformar. Assim, foram aos poucos se tornando os animais de caça que hoje flechamos e comemos. (...) Isso ouvi os antigos contarem.

O trecho acima introduz uma das instigantes narrativas cosmogônicas dos yanomami contadas do ponto de vista do xamã Davi Kopenawa, na ilustre obra A Queda do Céu, cujas lembranças inscritas em suas memórias indígenas são originárias de relatos que as(os) anciãs(ãos) foram transmitindo oralmente ao seu povo, em contextos atemporais, outorgando-lhes, assim, um modo coerente e integrado de perceber o mundo e se colocarem nele enquanto identidades coletivas pertencentes a determinada cultura indígena. Aqui, importa apreender dessa experiência com as palavras de Kopenawa que os imaginários indígenas são, em sua imensidade, diversificação e pluralidade - e não circunscritos a uma ideia homogênica, unificante, acerca das identidades dos povos originários -, grandes potências criativas de representações fenomenológicas humanas que emergem de um processo coletivo, oral, sagrado, ancestral e arquetípico.

Essas construções simbólicas representam, em estruturas enunciativas que o Ocidente normatizou como mitos, cosmovisões que simbolizam, significam, organizam e estabelecem os elementos da realidade cognitiva, afetiva e espiritual de povos, em suas especificidades, os quais estão relacionados a contextos históricos, sociais e culturais bem específicos. Para as teorias ocidentais, esses mitos são formas de conhecimento identitário e cultural criativas com as quais diversas sociedades, espalhadas pela imensidão territorial do mundo, puderam (re)elaborar suas existências, interpretando a origem do mundo, dos fenômenos naturais e da vida humana em toda sua complexidade. Como ressalta Rocha, os mitos são uma “forma de as sociedades espelharem suas contradições, exprimirem seus paradoxos, dúvidas e inquietações. Pode ser visto como uma possibilidade de se refletir sobre a existência, o cosmos, as situações de ‘estar no mundo’ ou as relações sociais.” (ROCHA, 2006, p. 7).

Esses discursos imaginativos não são específicos dos povos indígenas, manifestam-se em outros grupos, geralmente os que mantêm relações subjacentes com as suas tradições e ancestralidades, cujas(os) enunciadoras(es) sabem, como coloca Viveiros de Castro (2015, p. 15) a respeito do discurso de Kopenawa, “qual é, onde é, o que é o seu lugar.” Em se tratando do território brasileiro, além dos indígenas, os povos africanos elaboraram suas mitologias que, até hoje, frequentam o território do sagrado e “portanto, é uma ‘história verdadeira’, porque sempre se refere a realidades.” (ELIADE, 2006, p. 12). Por exemplo, Reginaldo Prandi (2001, p. 26) afirma que “os valores e ritos” das religiões dos orixás africanos “repousam num conhecimento mítico”.  

No entanto, os colonizadores interessaram-se por esses discursos cosmogônicos, os quais, sendo registrados na escrita alfabética, começaram a ser “ameaçados pelas tentativas dos brancos de aculturá-los” (POTIGUARA, 1989, s/p), a partir do ponto de vista eurocêntrico e etnocida, uma vez que a compreensão dos pensamentos dos ameríndios e africanos tinha a ver com uma violenta estratégia de dominação e poder por meio da colonização do saber. Ao longo dessa história dos colonizadores, os imaginários cosmogônicos desses povos subalternizados foram sendo reproduzidos, traduzidos e remodelados, adquirindo, muitas vezes, aspectos negativos, legendários e/ou folclorizados, que, aos poucos, a serviço das políticas nacionais, passaram a ser inseridos (n)os imaginários das sociedades americanas até nossa contemporaneidade. No Brasil, em se tratando de Exu, orixá das culturas iorubás, Reginaldo Prandi menciona que, na “época dos primeiros contatos de missionários cristãos com os iorubas na África, Exu foi grosseiramente identificado pelos europeus com o diabo e ele carrega esse fardo até os dias de hoje.” (PRANDI, 2001, p. 21).  A escritora indígena Eliane Potiguara (2019) desabafa que viu centenas “de pessoas escreverem sobre as lendas indígenas, alterando o conteúdo do texto, o final da história. Escritores que não eram indígenas, que pegavam um mito e alteravam para um texto escrito. Muda tudo. Não pode ser mudado. Aquilo é feito por indígena, alguém tem de defender esse território.”  Essas mitologias indígenas e africanas, registradas como fontes de pesquisa e literárias, proliferaram-se no circuito cultural, no mercado editorial, nas escolas, inscrevendo-se nas memórias das pessoas, reproduzindo criações imaginárias e artísticas, preconceituosas ou não, como símbolos nacionais autênticos.

Nos últimos anos, na contracorrente dos discursos hegemônicos e colonialistas, assumindo seus direitos de fala, ocupando seus lugares nas artes e literaturas, muitas(os) indígenas, africanas(os) e afro-brasileiras(os) têm protagonizado as escritas acerca de suas cosmovisões e seus imaginários ancestrais, culturais, tradicionais, permitindo que sejam ressignificados, a partir de suas perspectivas étnicas e identitárias, contribuindo exemplarmente para as reparações dos usos e abusos que os “outros” fizeram de seus modos de perceberem as suas realidades, relacionarem com seus territórios, sagrados e míticos, e lidarem com suas existências.

A diversidade das cosmogonias míticas tanto indígenas quantos africanas e o limitado espaço de aqui dispomos, nesta chamada, além da observância do recorte deste dossiê, impõe uma apresentação sintética sem ignorar, entretanto, as inúmeras leituras que da temática proposta podem advir. Portanto, o dossiê pretende reunir trabalhos, cujos objetivos põem, sob as mais variadas facetas teóricas e metodológicas, em análises, reflexões, debates ou discussões, diferentes textos literários, teóricos, filosóficos, críticos, escritos por indígenas, africanos, afro-brasileiros ou não, nos quais as cosmovisões indígenas, africanas e afro-brasileiras, e seus diferentes imaginários míticos e outras criações literárias, sejam protagonistas nos mais variados territórios e contextos sociais, históricos e culturais.  

Referências

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2006

KOPENAWA, Albert; BRUCE, Albert. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. Trad. Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

MINDLIN, Betty. O primeiro homem e outros mitos dos índios brasileiros. São Paulo: CosacNaify, 2001.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. Ilust. Pedro Rafael. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

POTIGUARA, Eliane. A terra é a mãe do índio – Nhándecy. GRUMIN (Grupo Mulher – Educação Indígena). Minas Gerais: PUC-Minas Gerais, 1989.

POTIGUARA, Eliane. Entrevista. In: Cohn, Sérgio; Kadiwèu, Idjahure (orgs.). Tembetá: conversas com pensadores indígenas. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2019. p. 104-144.

ROCHA, E. O que é mito? São Paulo: Brasiliense, 2006.

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2021: Edição Especial: Imaginários do(s) deslocamento(s) na contemporaneidade: representações dos sujeitos em trânsito.
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