Sobre as funções e a materialidade linguística da ficção

Homeostase, affordances, relevância

Palavras-chave: funções da ficção, affordances, relevância, homeostase

Resumo

Proposição da homeostase, conforme definida por António Damásio, como função dominante da ficção. Proposição do prazer na leitura como explicação do interesse pela literatura; explicação desse prazer como resultado da homeostase proporcionada pela leitura. Seguindo Damásio, compreenderemos a homeostase como um tipo de equilíbrio psíquico proporcionado pela experiência da arte, que permite, no decorrer da sua fruição, que indivíduos e coletividades processem problemas sociais ainda não propriamente interpretados e nomeados. Como esse equilíbrio não é apenas conscientemente processado, é preciso explicar como os componentes semânticos nele implicados podem se efetivar infraconscientemente; para tanto, recorremos aos conceitos de affordances e relevância. Inspirados pela apropriação de Terence Cave da proposição original de James J. Gibson, propomos que affordances textuais orientam o leitor na postura assumida diante do texto. Quanto à teoria da relevância de Dan Sperber e Deirdre Wilson, ela nos inspira a propor os modos pelos quais os conteúdos textuais produzem o equilíbrio homeostático proposto como função da ficção. Ao final, discutimos a extensão da nossa teorização e os possíveis limites à sua universalização.

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Biografia do Autor

Pedro D. Chagas, Universidade Federal do Paraná

Mestre em Teoria da Literatura, UFMG, 2003 / Doutor em Literatura Comparada, UERJ, 2007 / Visiting Scholar, Stanford University, 2007-8 / Professor Adjunto de Teoria Literária, UESB, 2008-2014 / Doutor em Estética e Filosofia da Arte, UFMG, 2010 / Arts, Science & Business Fellow, Akademie Schloss Solitude/Stuttgart, 2009-2011 / Professor Adjunto de Literatura Brasileira e Teoria Literária, UFPR, desde 2014.

Náira Bittencourt, Universidade Federal do Paraná

Graduada em Letras/Português pela Universidade Federal do Paraná, transita entre os campos da linguística, literatura e tradução. Na linguística participou de projetos na área de Fonética e Fonologia, na tradução de um projeto da Secretaria de Cultura do Estado do Paraná e no Centro de Assessoria de Publicação Acadêmica (CAPA), e na literatura atua na interface entre os Estudos Literários e a Pragmática, a Psicologia Cognitiva e a Psicologia Evolutiva, buscando entender como esses campos podem contribuir, em geral, na teorização da ficção e, em específico, na teorização do romance.

Referências

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Publicado
2019-06-19
Como Citar
CHAGAS, P. D.; BITTENCOURT, N. Sobre as funções e a materialidade linguística da ficção. Letras & Letras, v. 35, n. 1, p. 19-43, 19 jun. 2019.