Chamada para trabalhos (v. 37, n. 1, 2021): Volume Temático - Literatura, Intermidialidade e Ensino

2020-03-10

O termo intermidialidade é bastante recente e tem ampliado o entendimento das pesquisas sobre as relações interartes ao incorporar a palavra “mídia”, conferindo maior ênfase à materialidade aos produtos culturais do que valores e convenções culturais associados ao termo “arte”. Para Claus Clüver (2011, p. 9), os estudos da intermidialidade entendem que a palavra “mídia” seja uma forma mais adequada para se referir aos meios físicos ou à modalidade material utilizada para produzir significados. A intermidialidade, também para Clüver (2011), é um termo recente usado para analisar todos os tipos de inter-relação e interação entre as mídias. Por outro lado, segundo Irina O. Rajeswky (2012), a “intermidialidade” é um termo bastante abrangente que compreende fenômenos que se valem de dois ou mais gêneros para se estabelecerem. Como se vê, o campo de estudos da intermidialidade é bem amplo e pode envolver tanto processos interartísticos quanto aqueles que se valem dos recursos digitais. 

Enquanto debates envolvendo o conceito de intermidialidade e os estudos conceituais das inter-relações entre artes, mídias e formas literárias diversas têm sido bastante frutíferos, suas pedagogias e as metodologias têm sido subestimadas. O ensino de literatura culturalmente informado pelas artes e mídias, que se transformam em processos discursivos cada vez mais complexos, se faz a cada dia mais necessário, principalmente no que se refere aos cursos de licenciatura, locus tradicional de formação de professores. Para Semali & Pailliotet (1999, p. 4-6), os leitores modernos estão diante de textos intermidiáticos o tempo todo e a intermidialidade requer competência na compreensão e na produção não apenas de mídias impressas, mas também de mídias visuais, orais, pop, eletrônicas e combinadas, bem como de textos produzidos por estudantes, experiências de vida, acontecimentos culturais e sociais. Ainda segundo esses autores, o letramento crítico moderno é intermidial e passa pela habilidade de ler e escrever que usa os signos e cruza as fronteiras de sistemas semióticos diversos. 

A título de exemplo, podemos citar um recente documento oficial educacional, a BNCC – Base Nacional Comum Curricular (2018), em que alguns de seus itens exigem conhecimentos interdisciplinares envolvendo as mídias. Nesse documento, os conteúdos destinados à língua inglesa propõem práticas de leitura e fruição de textos de cunho artístico/literário. Entre as habilidades que devem ser trabalhadas estão o ato de apreciar textos narrativos de gêneros diversos (contos, romances, entre outros) em versão original ou simplificada, “como forma de valorizar o patrimônio cultural produzido em língua inglesa”; e “explorar ambientes virtuais e/ou aplicativos para acessar e usufruir do patrimônio artístico literário em língua inglesa” (p. 254-255). No quesito manifestações culturais, a BNCC elenca ainda como objeto de conhecimento de língua estrangeira a “construção de repertório artístico-cultural”, sendo que, para isso é preciso “construir repertório cultural por meio do contato com manifestações artístico-culturais (artes plásticas e visuais, literatura, música, cinema, dança, festividades, entre outros)(...)” (p. 256-257). Tendo em vista essa demanda por práticas interdisciplinares a serem realizadas por professores da educação básica, propõe-se discussões diversas, articuladas entre proposições conceituais e metodológicas, de maneira que os licenciandos em Letras acessem esses conhecimentos de maneira mais objetiva. Este dossiê propõe-se a investigar como esses conhecimentos interdisciplinares que convergem literatura, artes e mídias podem integrar os currículos dos curso de licenciaturas em Letras visando aproximar conhecimentos linguísticos, literários, artísticos e midiáticos, que agora se fazem tão necessários para a formação docente.

Dessa forma, o conhecimento interdisciplinar e transversal dos Estudos da Intermidialidade pode propiciar o acesso aos conhecimentos interartísticos necessários à formação de professores da área de Letras, de modo que o ensino de literatura na educação básica se torne midiático e culturalmente informado. Esta proposta busca integrar as pesquisas recentes em intermidialidade e sua aplicabilidade em contextos educacionais, ao propor discussões a respeito de metodologias de apresentação de conteúdos que integrem a literatura e as outras artes e mídias. Este dossiê, assim, busca apresentar estudos que contemplem a literatura, o teatro, o cinema, os musicais, a televisão, o roteiro, a pintura, a escultura, o romance gráfico, os quadrinhos, a fotografia, entre outros objetos artísticos, em face a contextos de ensino-aprendizagem. Entre as práticas intermidiáticas esperadas estão os processos de transposição midiática, a combinação de mídias, as referências intermidiáticas, a transmidialidade, a remediação e seu papel na criação de novas mídias, a transmidiação e o estudo de transferência de modalidades de mídia; e ainda outras formas de interfaces e hibridizações entre duas ou mais mídias, tais como reescrituras e releituras de textos literários, adaptações, novelizações, écfrase, o vídeo-arte e a poesia visual.

Enfim, a organização deste volume busca agregar textos (artigos, entrevistas, traduções e resenhas) decorrentes de pesquisas sobre a intermidialidade que contemplem principalmente as metodologias envolvendo a literatura e uma ou mais mídias nos seguintes cenários: (1) estudos de caso decorrentes de propostas pedagógicas; (2) propostas de estudos e roteiros pedagógicos que contemplem literaturas e mídias; e (3) discussões teóricas que contemplem a integração entre os estudos da intermidialidade em contextos educacionais.  

 

Organizadoras: 

  Profa. Dra. Erika Viviane Costa Vieira - UFVJM, Brasil

  Profa. Dra. Miriam de Paiva Vieira - UFSJ, Brasil

  Profa. Dra. Heidrun Führer - Universidade de Lund, Suécia

 

Data inicial da divulgação da chamada: 10 de março de 2020

Recebimento de trabalhos: até 17 de agosto de 2020

Aceite dos trabalhos: até dezembro de 2020 

Publicação: 1º semestre de 2021

 

Línguas de trabalho: português, espanhol, francês e inglês

 

Folha de estilo disponível aqui.